Cartas para mim
A garota crescida quer brincar de bonecas, quer ser adolescente
sem saber (ou sabendo) que isso já não cabe em seu tempo, ela é assim, horas
menina, horas mulher podia escolher tudo podia escolher tudo no mundo e nesse
tudo optou por ser sozinha, abriu mão de tudo, abriu mão de um tudo que na
verdade não era nada quis ser assim pai mãe, mulher...mulheres, e quantas
mulheres cabem dentro dela, são tantas e tão diferentes umas das outras.
O clima de porto é quente, o povo tem a fala mansa e o
sorriso fácil, e meu coração que sempre
foi frio aos poucos passa para o morno, e se aquece com a falta de movimento de
uma cidade pequena, e com a simplicidade de tudo, talvez fosse essa calma que
faltava a mim, a calma de olhar para dentro de mim e me ouvir, mais tenho que
concordar que minha fala para comigo ainda me parece estranha, eu ainda não me
entendo, mais aos poucos o corpo cria para com a alma um dialecto próprio, o que
não significa que ambos se entendam mais poderão manter um contato ainda que
superficial
Meus pés já acostumados com o solo paulistano, aos poucos se
acostumam com as ruas de pedra de Porto, hoje mesmo fui capaz de usar um salto
quinze agulha e tropeçar somente duas vezes, o que é uma grande vantagem, pois
na primeira vez eu mal conseguia dar um passo sem tropeçar.
Entretanto aqui ainda não sou aquela que eu costumava a ser,
eu que nunca coube dentro de mim, hoje to tão encolhida que meu corpo parece
ate grande de mais para essa minha alma mirrada, to em busca daquela mulher
destemida que eu fui, aquela que tinha aqueles olhos intimidadores. Não quero ser
essa garota tímida que se desculpa por tudo, por fim to seguindo a vida




